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BEIJO QUE TE QUERO MAIS
Rosana Braga
Beijo deveria estar disponível nas vitrines
das melhores docerias. Poderia até ter preço especial...
Beijo deveria ser moeda de pedágio. Passar
pela porta de casa seria proibido sem antes lascar um beijo na mãe, no pai, no
irmão, no filho, no marido e, para quem gosta, até no cachorro!
Beijo deveria ser como bolinha de sabão. Num
sopro, a gente poderia mandar alguns pelos ares, que explodiriam na pele de quem
neles tocassem. E de repente, sem saber de onde veio, seríamos presenteados com
um beijinho perdido pelas ruas da cidade...
Beijo deveria ser elemento químico. Constar
na Tabela de Elementos que a gente tem de decorar para a prova de química, no
colégio. Assim, certamente seria mais interessante e ainda ensinaria qual a fórmula
mágica deste estalo tão bom...
Beijo deveria caber num envelope, mesmo que
fosse dos maiores, mas que pudéssemos enviá-lo pelo correio, para aquela
pessoa que está tão longe e que daria qualquer coisa para sentir o gosto da
boca de seu amado.
Beijo deveria acender luzes pelo corpo da
gente. E quando a energia elétrica entrasse em pane, bastaria que demonstrássemos
nosso amor pelas pessoas queridas e qualquer escuridão terminaria...
Beijo deveria estar disponível nas vitrines
das melhores docerias. Poderia até ter preço especial, mas que pudessem pagar
por ele aqueles que aparentemente menos merecessem, porque beijos são realmente
transformadores e provocam reações sensacionais.
Mas beijo não é assim. É particular e a
gente escolhe em quem quer dar. Porque beijo é um presente que precisa de
vontade para ser oferecido. E talvez seja melhor que assim seja: não tão anônimo,
não tão sem motivo, nunca forçado, ainda que possa ser pedido.
Por fim, é essencial que o beijo seja leve,
fluido, sintonizado com a delicadeza própria de quem sabe dar. Na verdade,
beijo é sempre dado. Receber é apenas contingência da mais gostosa e
prazerosa troca entre duas pessoas que se desejam inteiras e intensas por breves
e insanos minutos, porque um beijo pode valer mais que a lucidez de uma vida
inteira.
Rosana Braga é escritora, jornalista e consultora em
relacionamentos afetivos.
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