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UMA PAUSA PARA PENSAR UM
POUCO SOBRE O AMOR
Flávio Gikovate
A questão amorosa preocupa mais à maioria do que os aspectos essencialmente
relacionados com o sexo. Não creio que isso seja justo, pois o sexo ainda é um
grande problema a ser melhor resolvido pelas gerações que estão aí e também
pelas que virão.
Aconteceu um fato recente que me fez escrever este pequeno texto sobre o amor.
Fui convidado para fazer uma pergunta para Rosa Montero (escritora espanhola que
foi entrevistada pelo programa Roda Viva da TV Cultura em 10/4). Perguntei se
ela achava razoável pensarmos na existência de um fator anti-amor, um fator
interno que torna tão difícil e incomum a realização das histórias de paixão,
tema de um dos seus trabalhos mais recentes.
A
resposta dela foi de tal forma surpreendente que me fez reconsiderar alguns
aspectos relacionados com o que já escrevi sobre o assunto: ela desviou
totalmente do assunto e parece não ter entendido minimamente o que eu estava
falando (havia tradução simultânea para o espanhol)! Compreendi o quanto a
maior parte das pessoas, mesmo as mais esclarecidas, ainda é carente de informações
a respeito do tema. Ela dizia que a paixão é um vício, algo que só pode
durar uns 2 anos; este é o discurso oficial, nada criativo. Dizia também que
depois de superada a paixão, as relações ganhavam aquele aspecto cotidiano um
tanto monótono e repetitivo. Ela disse que ela mesma havia se apaixonado várias
vezes e que as histórias sempre terminavam assim: quando se sai da fantasia
para a realidade, o tédio e a monotonia acabam por predominar.
Em
síntese, ela disse que ou vivemos o amor como drogados ou então o vivenciamos
como um tédio. Nada pode ser mais tradicional, conservador e depressivo do que
estas considerações extraordinariamente reacionárias. Dão a impressão de
que não há saída e salvação para a questão do amor a não ser pelo esforço
enorme de aceitar e respeitar as diferenças que são inerentes ao fato de que o
amor real implica em indivíduos específicos. Não fala sobre que diferenças
e, com isso, coloca todas as diferenças no mesmo saco. Não preciso enfatizar o
quanto acho isso perigoso, pois é muito diferente estar convivendo com um
bandido, com uma pessoa sem caráter e desleal, ou com alguém que gosta de
acordar cedo quando gostamos mais de dormir até tarde. Há diferenças e
diferenças e colocá-las todas juntas é estimular a idéia de que não devemos
levá- las em conta já que terão que existir e teremos que trabalhar muito –
ainda que no contexto das relações tediosas – para que consigamos ter algum
tipo de afetividade pela pessoa por quem antes tínhamos paixão.
Ela
fala que, na paixão, amamos mesmo é o estado que o encantamento pelo outro
provoca em nós. É verdade. Diz que não amamos a outra pessoa e que amamos
mesmo é o amor! Este é mais um capítulo do discurso oficial, tradicional e
vazio. Amamos uma determinada pessoa porque ela provoca em nós uma série de
sentimentos e sensações e isso é o que venho afirmando há décadas. Amo
aquela pessoa cuja presença provoca em mim a sensação de aconchego, de paz e
de bem-estar que eu perdi no momento do nascimento. Amo a pessoa porque ela é
capaz de provocar em mim emoções muito agradáveis. É mais que lógico que
seja assim. O trágico é que muitas pessoas, depois de encantadas, continuam a
amar a pessoa apesar dela provocar dor, humilhações e todo o tipo de insegurança
e desconforto. Isso não é mais amor e sim uma dependência mórbida que está
desconsiderando os fatos e que torna tantas pessoas reféns de parceiros que não
valem a pena. Aí as pessoas falam coisas do tipo: ele é péssimo, mas eu o
amo! Isso é que não faz o menor sentido. Temos mesmo que amar a pessoa que nos
faz feliz, que provoca em nós grandes e prazerosas sensações.
Enfim,
eu que pensava que não haveria necessidade de escrever mais nada a respeito do
amor decidi, em virtude deste fato e de tantas observações que tenho lido no
meu site a respeito da sexualidade (além das consultas on line onde, é claro,
os assuntos relacionados com namoros e casamentos desastrosos predominam
largamente), tratar de escrever mais sobre o amor, sobre os caminhos que levam
à felicidade sentimental. Não é para já porque outros compromissos e
projetos em andamento me exigem muito tempo. Mas acho que em 2007 lançarei um
texto bem simples e direto que trate de desfazer todos esses mal entendidos.
Quero
muito reafirmar mais uma vez que a paixão corresponde a um encantamento de ótima
qualidade entre pessoas parecidas que vivenciam este encontro com muito medo. O
medo é parte da paixão e dá a ela o caráter aflitivo e tenso que pode se
assemelhar ao vício. Quando o medo se atenua, a relação continua a manter
todo o vigor e todo o encantamento próprio das relações baseadas na confiança
recíproca, numa intimidade totalmente compartilhada e num clima erótico legal.
O medo não é outro senão uma manifestação do que chamo de fator antiamor,
presente em todos nós, que está principalmente relacionado com o medo da
felicidade. Este é o maior obstáculo à realização amorosa. Como todo medo,
só pode ser tratado de uma forma: enfrentando-o com consciência, coragem,
determinação e persistência.
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